Vida Correta (Swadharma): O Ensinamento de Sri Shivapuri Baba
Um relato de primeira mão, extraído apenas de quem falou com ele
Para a vida do homem que o ensinou, veja a biografia.
O objetivo: uma “Arte de Viver” que é também uma “Arte de Morrer”
Todos querem ser felizes, ensinava o Baba, e no entanto as pessoas sofrem porque não aprenderam nem a viver nem a morrer. Sua resposta era uma única disciplina prática que ele chamava de Vida Correta, ou Swadharma — que resumiu a Radhakrishnan em 1956 como três disciplinas, “espiritual, moral e física”, e descreveu, em outras ocasiões, como o Bhagavad Gita atualizado (Bennett e Manandhar, 1965; Bennett, 2016). Não é uma religião de dogma ou ritual, mas um método com um objetivo definido: ver a Verdade, alcançar a Deus e assim atingir a liberdade (Singh, 1984; Shrestha Malla, s.d.).
Dois traços o tornam universal. Primeiro, o Baba sustentava que a vida comum se sustenta não pelo prazer ou pela riqueza, como as pessoas imaginam, mas pelas próprias três disciplinas, presentes em graus distintos em cada criatura (Singh, 1984). Segundo, ele insistia em que o caminho deve ser ajustado a cada pessoa: a aplicação do Swadharma difere de indivíduo para indivíduo, e as concepções de moralidade variam com o tempo e o lugar (Singh, 1984). Daí seu dito muitas vezes registrado — “Relativamente falando, todos têm razão; absolutamente falando, todos estão errados” (Singh, 1984) — e a observação de Bennett de que ele formulava o mesmo ensinamento no idioma de quem quer que viesse a ele, dizendo a um discípulo cristão simplesmente que mantivesse a mente em Cristo (Bennett, 2016).
O problema: a tríplice aflição (Tribidha Tapas)
Na sistematização dos discípulos, a infelicidade humana brota de nosso próprio modo errado de viver e da ignorância acerca do que somos, o que nos expõe a uma tríplice aflição (Shrestha Malla, s.d.). Os três termos provêm do Sāṃkhya clássico, onde designam o sofrimento que se origina (a) de si mesmo, corpo e mente; (b) dos outros seres vivos e do mundo externo; e (c) de forças cósmicas ou “divinas” fora de nosso controle. Os compiladores fazem corresponder esses termos aos três planos que as disciplinas devem curar — o físico/intelectual, o mental e o espiritual —, de modo que cada disciplina responda a uma camada de aflição. A correspondência exata é a interpretação dos discípulos e varia ligeiramente de um relato para outro; a constante é o diagnóstico de que o sofrimento tem raízes na ignorância e na desordem, não na circunstância.
A cura: as três disciplinas
1. Disciplina física e intelectual. Cumpra apenas seus deveres fixos e necessários (karma) — para com a profissão, a família e a sociedade —, realizados com pontualidade e destreza; evite a atividade inútil (akarma) e a ação nociva (vikarma) (Singh, 1984; Shrestha Malla, s.d.). Seu fruto é um corpo são, a isenção do fracasso evitável e o prazer (sukha) mundano (Bennett e Manandhar, 1965).
2. Disciplina moral e mental. Liberte a mente do desejo ilícito (icchā) e da atração exercida por gostos (rāga) e desgostos (dveṣa), e cultive as virtudes divinas — o daivī sampad do décimo sexto capítulo da Gita, tradicionalmente contadas em vinte e seis, entre elas o destemor, a caridade, a veracidade e o autodomínio (Bennett e Manandhar, 1965; Shrestha Malla, s.d.). Seu fruto é uma mente estável e tranquila e o contentamento / serenidade (santoṣa) (Singh, 1984; Shrestha Malla, s.d.).
3. Disciplina espiritual. Com o corpo e a mente em ordem, volte a alma para Deus: concentração (dhāraṇā), meditação (dhyāna) e, acima de tudo, a investigação espiritual — insistindo nas perguntas “Quem sou eu?” e “Para que vim aqui?” (Bennett e Manandhar, 1965; Shrestha Malla, s.d.). Seu fruto é a remoção da ignorância, a libertação do medo e a paz (śānti), culminando na Realização de Deus.
O Baba deu uma imagem vívida de como as disciplinas e a investigação se articulam: praticar as três disciplinas é como arrancar a flecha da ferida — remove o problema imediato —, ao passo que a investigação “Quem sou eu?” reconduz àquele que disparou a flecha, isto é, a Deus, a fonte (Shrestha Malla, s.d.). A versão de Bennett é ainda mais enxuta: reduzir a prática a pensar somente em Deus, afastando todo outro pensamento, até que se veja a Deus (Bennett e Manandhar, 1965).
Os dois pilares: Discernimento (Viveka) e Devoção (Vairāgya)
Bennett registra que o Baba agrupava as disciplinas física e moral como Discernimento (Viveka) e a disciplina espiritual como Devoção (Vairāgya) — os dois aspectos da Vida Correta — e sustentava que quem se dedica fielmente às duas primeiras por cerca de uma década torna-se naturalmente capaz de cumprir a terceira (Bennett e Manandhar, 1965). Singh preserva a analogia simples do Baba para as três facetas: observar a disciplina intelectual é como pagar seus impostos; a disciplina moral, como obedecer às leis do país; e a disciplina espiritual, como ser aprovado no exame final para um alto cargo (Singh, 1984).
(Uma imagem que circula — a de que o Discernimento é “a refeição de hoje” e a Devoção, “a refeição de amanhã” — combina com o ensinamento, mas não consegui confirmá-la nas fontes de primeira mão consultadas; a analogia registrada por Singh é a dos impostos/leis/exame, acima. Sinalizo-a, em vez de apresentá-la como documentada.)
A meditação e seus estágios
O Baba tratava a meditação como o coração da disciplina espiritual, mas era notoriamente impaciente com a técnica elaborada e a austeridade, que considerava distrações; pedia, em vez disso, um “mínimo de vida” vivido plenamente e com senso de dever, sem mortificação (Bennett e Manandhar, 1965). Distinguia os estágios clássicos de concentração, meditação e absorção (dhāraṇā, dhyāna, samādhi) e — coerente com o ajuste do caminho à pessoa — deixava que o objeto de contemplação seguisse a fé de cada buscador (Bennett, 2016). O que ele enfatizava, concordam os discípulos, era a prática acima da teoria: o ensinamento é inútil quando apenas lido, e só se torna real quando praticado (Shrestha Malla, s.d.; Meares, 1969).
Pondo em prática
Os discípulos preservam as instruções práticas do Baba sob dezenas de rubricas temáticas — entre elas dever, profissão, alimentação, sofrimento, satsang, caridade, revisão, investigação, luta, graça e renúncia (Shrestha Malla, s.d.). O conselho prático recorrente é:
- Mantenha uma rotina rigorosa e pontual. Levante-se cedo, conserve-se limpo, cumpra cada dever no horário e reserve períodos fixos para a meditação e o estudo; a pontualidade conserva energia e constrói o domínio de si (Shrestha Malla, s.d.).
- Revise o dia a cada noite. Antes de dormir, olhe o dia com imparcialidade, identifique onde falhou na disciplina física, moral ou espiritual e resolva corrigi-lo no dia seguinte (Shrestha Malla, s.d.).
- Coma de modo simples e puro. Os discípulos registram uma dieta sáttvica e a exclusão dos alimentos tâmasicos; a lista específica (evitar carne, peixe, ovos e álcool, privilegiando arroz, leguminosas, leite e ghee) é a interpretação que deram de seu conselho sobre a alimentação, que ele associava à estabilidade da mente (Shrestha Malla, s.d.). Meares, que o conheceu em 1960, observou diretamente sua frugalidade (Meares, 1969).
- Pratique a caridade. Dedique uma parte de seus ganhos (os discípulos especificam cerca de um décimo) aos pobres, ao saber e aos buscadores; a caridade afrouxa o apego (Shrestha Malla, s.d.).
- Espere lutar. O Baba não exigia êxito rápido, mas esforço sincero; deve-se seguir trilhando o caminho através do fracasso e da tentação, confiando em que a graça vem na esteira da persistência (Shrestha Malla, s.d.; e cf. sua promessa pessoal a Bennett de que a realização lhe chegaria antes de morrer, Bennett e Manandhar, 1965).
- Mantenha boa companhia (satsang). Reúna-se com regularidade com outros buscadores para falar abertamente de suas próprias deficiências e receber orientação (Shrestha Malla, s.d.).
O registro experiencial: o que foi mostrado aos visitantes
Duas testemunhas externas registraram o ensinamento tal como ele se fazia sentir na conversa, mais do que como doutrina. O diário de viagem de Hugh Ripman preserva a resposta do Baba à pergunta de por que algumas pessoas buscam a Deus e outras não — a de que a maioria é simplesmente desviada pelo prazer — e seu ensinamento de que a alma é o verdadeiro “eu”, que nunca pode ser explicado, mas apenas experimentado; comparava a consciência comum a peixes vivendo dentro da água, sendo Deus o que está acima da superfície, de modo que erguer a cabeça acima da água, ainda que por um instante, é ver a Deus (Ripman, 1999; citado também em Singh, 1984, e Shrestha Malla, s.d.). O Dr. Ainslie Meares saiu impressionado, acima de tudo, com a serenidade do homem e com sua insistência na prática acima da teoria (Meares, 1969).
A meta
A promessa da Vida Correta, nas palavras dos discípulos, é a transformação de uma pessoa comum em Sat-cit-ānanda — Existência, Consciência, Bem-aventurança — e a libertação do ciclo de nascimento e morte rumo a uma liberdade e a uma paz duradouras (Shrestha Malla, s.d.; Singh, 1984). Singh, que anotou suas observações ao longo de mais de uma década, chamou o ensinamento de Philosophia Perennis e fez questão de acrescentar que seu livro continha apenas uma pequena parte de suas conversas com o mestre (Singh, 1984).
Referências
Para saber onde encontrar essas obras — em catálogo, usadas ou gratuitas para empréstimo on-line —, veja Livros e Mídia.
- Bennett, J. G. 2016. The Shivapuri Baba and His Message: Four Lectures on a Great Indian Sage. The Collected Works of J. G. Bennett, vol. 11. Santa Fe, NM: Bennett Books. [Conferências proferidas em Denison House, Londres, outubro–novembro de 1962.]
- Bennett, J. G., e Thakur Lal Manandhar. 1965. Long Pilgrimage: The Life and Teaching of Sri Govindananda Bharati, Known as the Shivapuri Baba. London: Hodder & Stoughton.
- Meares, Ainslie. 1969. Strange Places, Simple Truths. London: Souvenir Press. [Capítulo “Nepal”, que registra seu encontro de 1960.]
- Ripman, Hugh Brockwill. 1999. Search for Truth. Washington, DC: Forthway Center Palisades Press. [A seção “Travels and Conversations” registra seu encontro com “um santo hindu” — o Shivapuri Baba; os diálogos de seu diário de viagem também são citados em Singh, 1984, e Shrestha Malla, s.d.]
- Singh, Renu Lal. 1984. Right Life: Teachings of the Shivapuri Baba. Ed. rev. e ampl. Ellingstring, North Yorkshire: Coombe Springs Press. (Publicado originalmente em Kathmandu: Govinda Prasad Pradhan, 1975.) ISBN 0-900306-82-3.
- Shrestha Malla, Yogendra Bhakta (Y. B.). s.d. Right Living: The Teaching of Sri Shivapuri Baba (e sua compilação, organizada por temas, das sentenças do Baba). Kathmandu: Ratna Pustak Bhandar.
- Timilsina, Bishnu Prasad. s.d. Swadharma. [Em nepali.]
Nota sobre citação e método. Os números de página são omitidos deliberadamente: fornecê-los exigiria o cotejo com edições impressas específicas e nomeadas, e inventá-los frustraria o propósito. Onde uma afirmação se apoia num locus definido — o diálogo com Radhakrishnan em Long Pilgrimage, o diário de viagem de Ripman, o capítulo “Nepal” de Meares —, esse locus é nomeado no texto. Os itens marcados “s.d.” são as duas obras dos discípulos nepaleses cujos anos de publicação não puderam ser fixados a partir dos registros consultados; beneficiar-se-iam de verificação em um catálogo de biblioteca. Os termos do Sāṃkhya são dados em sua transliteração padrão; os discípulos do Baba os grafam de várias maneiras.
Ressalva crítico-textual. O ensinamento em si é a parte mais sólida do legado de Shivapuri Baba, pois foi registrado por várias pessoas que o aprenderam diretamente com ele e que concordam, em linhas gerais, quanto à sua arquitetura. Permanecem duas advertências. A reputada longevidade (137 anos) e a biografia anterior ao Nepal apoiam-se em seu próprio testemunho e não fazem parte da base probatória do ensinamento (são ponderadas na biografia). E o detalhe escolástico — as aflições e virtudes enumeradas, as especificidades alimentares e de caridade — é a sistematização que os discípulos nepaleses fizeram de suas respostas orais; Bennett, que também o ouviu longamente, deliberadamente expôs o mesmo ensinamento de modo muito mais simples. Onde os dois registros divergem, este documento assinala qual testemunha está falando.